Exigência Diferenciada de Fósforo entre as Plantas Forrageiras
20-07-2010
Download do arquivo
1. Pecuária e pastagem no Brasil
A produção de carne brasileira tem crescido acentuadamente,
atingindo incremento de 43% no período entre 1999 e 2008. Segundo
dados do IBGE, o Brasil mantém o maior rebanho bovino comercialdo
mundo, com 199,75 milhões de cabeças, e é o maior exportador
mundial nessa categoria (Anuário Brasil de Pecuária, 2009).
A área de pastagem que sustenta a produção nacional do rebanho
estende-se por vários estados. Atualmente, estima-se que a área de
pastagem cultivada no cerrado seja da ordem de 61 milhões de
hectares (VILELA et al., 2004, citado por MARTHA JUNIOR et al.,
2007). As gramíneas mais comumente utilizadas nessa região são as
do gênero Brachiaria (BELARMINO, 2005).
Apesar da vasta área cultivada, grande parte das pastagens
encontra-se em algum estágio de degradação. Esse quadro é
decorrente de diversos fatores ligados à planta (forrageira), ao
solo (insuficiência nos teores de fósforo), ao clima, ao manejo e
ao animal (PRADO, 2006), abrangendo desde a perda de vigor e
produtividade do capim, até invasoras, pragas e doenças, além da
compactação e da erosão do solo (MACEDO, 2000, citado por MARTHA
JUNIOR et al., 2007). Pesquisas realizadas nos últimos anos têm
mostrado que a utilização de fertilizantes nas pastagens é
fundamental para corrigir as limitações químicas dos solos,
desacelerando o processo de degradação (SOUSA, 2006).
O fósforo, em especial, necessário durante todo o ciclo da planta,
está ligado diretamente à produção de energia e à reprodução.
Como as forrageiras tendem a permanecer no campo por muito tempo,
a disponibilidade desse nutriente é fundamental para garantir a
manutenção de seus processos metabólicos, proporcionando o aumento
de sua vida útil, a fim de suprir a exigência do rebanho. O manejo
racional desse nutriente é, portanto, essencial para o sucesso na
implantação, na manutenção e na longevidade da forrageira, além da
viabilidade da atividade pecuária.
2. Exigência nutricional das forrageiras em fertilidade do
solo
As espécies forrageiras apresentam diferentes graus de exigência
nutricional (Tabela 1). A partir daí, é possível planejar a
adubação de acordo com a forrageira adotada.

2.1. Fósforo
Como consequência da baixa disponibilidade de fósforo (P) nos
solos, a produtividade das pastagens na região do Cerrado é baixa,
assim como são baixos os índices zootécnicos. Nessa situação a
adubação fosfatada é de vital importância desde o estabelecimento
da forrageira, quando o sistema radicular é pouco desenvolvido, até
a fase de pleno crescimento, em razão da grande influência desse
nutriente no crescimento das raízes e no perfilhamento das plantas,
sendo necessário também no processo de recuperação de pastagens
degradadas.
Além disso, a resposta à adubação fosfatada depende da
disponibilidade de P no solo, do tipo de solo, da espécie (Tabela
1), das condições climáticas, entre outros fatores.
As plantas, de modo geral, têm comportamento diferente em relação
à exigência nutricional. Algumas forrageiras apresentam maior
habilidade em absorver P, como é o caso da Brachiaria decumbens,
principalmente sob condições de baixa umidade, o que pode ser a
justificativa de sua adaptação em solos de baixa fertilidade no
Brasil (SANTOS JR., 1999, citado por MACEDO, 2004).
Essa característica leva ao uso intensivo dessa gramínea em
diferentes regiões do país. Todavia, assim como para as grandes
culturas, faz-se necessária a reposição dos nutrientes absorvidos,
principalmente o P. Se não forem repostos, a longevidade da
pastagem estará comprometida, independentemente da espécie adotada.
Além disso, o empobrecimento do solo pode levar à morte das plantas
e à redução da capacidade produtiva e, como consequência, a
degradação da pastagem.
As plantas apresentam diferentes sintomas quando estão com alguma
deficiência nutricional. A deficiência de fósforo é caracterizada
pelo aparecimento de coloração verde mais escura nas folhas mais
velhas, pela redução do número de folhas e da expansão da área
foliar (PRADO, 2006), além da paralisação do crescimento. Essas
observações podem auxiliar o diagnóstico do estado nutricional da
forrageira e determinar a necessidade de correção e adubação do
solo.
Na Tabela 2, é possível observar as diferentes produtividadesdos
capins de acordo com as doses de P.

Comparativamente, observando a Tabela 2, à medida que aumentam as
doses de fósforo, aumenta a produtividade detodas as forrageiras.
Contudo, o capim-mombaça teve maior rendimento em forragem e
mostrou-se mais responsivo à adubação.
O capim-mombaça em relação ao braquiarão manteve o mesmo gradiente
de produção, enquanto o andropogon teve a menor produtividade.
Entretanto, a dose de 80 kg de P2O5 foi suficiente para suprir a
exigência do capim andropogon, proporcionando maior produção em
relação a 120 kg/ha do nutriente.
3. Adubação fosfatada
Considerando a exigência nutricional da forrageira adotada na
propriedade e a fertilidade do solo, obtida por intermédio da
análise dos teores de nutrientes no solo, é possível planejar o
manejo mais adequado e as doses de fertilizantes a serem aplicados,
visando garantir que a pastagem proporcione maior rendimento. Vale
frisar que os efeitos da aplicação de P são significativos na
produção de forrageiras, desde que os demais nutrientes não sejam
limitantes. Existem duas modalidades de adubação fosfatada:
(i) corretiva e (ii) manutenção.
(i) adubação fosfatada corretiva - é realizada no
estabelecimento de pastagens, quando o teor de fósforo no solo
estiver abaixo do adequado. Esse procedimento pode ser feito de uma
única vez ou de maneira gradativa. A adubação corretiva gradual
consiste em aplicar a quantidade de fósforo destinada à
correção do solo de modo parcelado.
(ii) adubação fosfatada de manutenção - é
recomendada
com a finalidade de evitar a degradação da pastagem e
proporcionar/manter níveis de produtividade que garantam a
sustentabilidade do sistema.
A Embrapa define as classes de fertilidade de solo para as
diferentes espécies, de acordo com a exigência de fósforo de cada
uma (Tabela 3).Com base nos dados das Tabelas 1 e 3, é possível
identificar as doses adequadas a serem aplicadas na fase de
estabelecimento da pastagem (Tabela 4).


Em virtude da deficiência generalizada de fósforo nos solos do
Cerrado, a frequência de resposta das plantas à adubação com esse
nutriente é normalmente elevada. A distribuição a lanço, seguida de
incorporação, em solos com baixa disponibilidade de P, cria
condições para que a planta absorva fósforo, água e demais
nutrientes, graças à melhor distribuição do fertilizante em maior
volume de solo. No estabelecimento da pastagem, a aplicação do P
normalmente é feita a lanço, seguida de incorporação, e, em alguns
casos, na linha, ependendo das condições de fertilidade do
solo.
Em pastagens estabelecidas, o fósforo pode ser aplicado a lanço,
na superfície do solo, sem incorporação, preferencialmente no
início da estação chuvosa. Entretanto, em pastagem degradada, na
qual a cobertura vegetal é pequena, sugere-se, antecipadamente, a
correção do solo, por ser uma prática que contribui para aumentar a
disponibilidade do P e a eficiência de seu uso, quando proveniente
dos fertilizantes fosfatados solúveis (SOUSA et al., 2007).
Outra opção para ampliar a reciclagem e a eficiência de uso do
fósforo pelas plantas é aumentar o teor de matéria orgânica do solo
(SOUSA et al., 2007). Isso pode ser obtido tanto com a rotação de
culturas quanto com a utilização de sistemas de manejo (integração
lavoura-pecuária), bem como com a exploração racional da capacidade
de suporte da pastagem, visando garantir sua longevidade e a
rentabilidade do produtor.
4. Considerações finais
A baixa fertilidade dos solos do Cerrado e a elevada resposta das
forrageiras à aplicação de nutrientes sugerem o manejo direcionado
da adubação, buscando a exploração do potencial produtivo e a
sustentabilidade do sistema solo-planta-animal (SOUSA et al.,
2007).
Para isso, o mercado oferece inúmeras opções de fertilizantes
fosfatados de disponibilidade imediata: os Superfosfatos Simples e
Triplo, Monoamônio Fosfato (MAP) e Diamônio Fosfato (DAP), que
contêm fósforo prontamente disponível, de liberação rápida, para
atender à demanda inicial da planta. Os fosfatos naturais e os
fosfatos naturais sedimentares de alta reatividade (FNR)
comportam-se de maneira diferente - disponibilizam o nutriente de
forma gradual e contínua. As variações de fonte e doses a
serem aplicadas dependem da avaliação de cada caso, considerando,
entre outros, as condições edafoclimáticas.
Em virtude da importância do P, sua utilização em áreas de
pastagem pode ser feita tanto na implantação da forrageira quanto
na manutenção de seus teores no solo, possibilitando maior
perfilamento das gramíneas e o aumento nos teores de massa seca e,
consequentemente, maiores produtividades.
Ressalta-se, portanto, a importância da análise do solo como
ferramenta para o diagnóstico das necessidades do solo e o
suprimento nutricional adequado da forrageira, de acordo com a
exigência específica de cada espécie, conforme apresentado na
Tabela 1.
Convém salientar que em sistemas de exploração pecuária, que
buscam elevada produção de forragem, a adubação e o manejo adequado
são premissas básicas para a manutenção da produtividade vegetal e
animal.

Autor desta edição:
Renata Alves Horvat é Assessora Agronômica Trainee da
Bunge Fertilizantes no Maranhão e Piauí.
Engenheira Agrônoma formada pela UNESP - Universidade Estadual
de São Paulo, Jaboticabal - SP.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
ANUÁRIO BRASILEIRO DA PECUÁRIA. Santa Cruz: Gazeta Santa Cruz,
2009. Disponível em: <www.anuarios.com.br>. Acesso em: 14 de
out. de 2009.
BELARMINO, M. C. J. Superfosfato Triplo na produção e qualidade
de quatro gramíneas forrageiras tropicais. 147 f. Tese de
doutorado. Universidade Federal de Lavras (UFL), Lavras, 2005.
MACEDO, M. C. M. Adubação fosfatada em pastagens cultivadas com
ênfase na região do Cerrado. In: Simpósio sobre fósforo na
agricultura
brasileira. YAMADA, T.; ABDALLA, S. R. S. (Eds.). Piracicaba:
POTAFOS, 2004. p. 359-400.
MARTHA JÚNIOR, G. B.; VILELA, L.; BARCELLOS, A. O.; SOUSA, D. M.
G.; BARIONI, L. G. Pecuária de corte no Cerrado: aspectos
históricos e conjunturais.
In: MARTHA JÚNIOR, G. B.; VILELA, L.; SOUZA, D. M. G. (Eds.).
Cerrado: uso eficiente de corretivos e fertilizantes em pastagens.
Planaltina: Embrapa Cerrados, 2007. p. 17 - 42.
PRADO, R. M. Manual de nutrição de plantas forrageiras.
Jaboticabal, 2006. p. 143.
SOUSA, D. M. G.; MARTHA JÚNIOR, G. B.; VILELA, L. Adubação
fosfatada. In: MARTHA JÚNIOR, G. B.; VILELA, L.; SOUZA, D. M. G.
(Eds.). Cerrado: uso
eficiente de corretivos e fertilizantes em pastagens. Planaltina:
Embrapa Cerrados, 2007. p. 145-177.
SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E.; REIN, T. A. Adubação com fósforo.
In: SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E. Cerrado: correção do solo e
adubação. 2. ed. Brasília:
Embrapa, 2004. p. 147-168.
SOUSA, R. S. Adubação nitrogenada e fosfatada na produção e
qualidade de Panicum maximum cv. Capim tanzânia. 65 f. Dissertação
de mestrado,
Itapetinga. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb),
Bahia, 2006.