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Adubação Potássica na Cultura do Algodão no Cerrado

01-09-2009 Download do arquivo

1 Algodão no cerrado

O cerrado brasileiro passou a se destacar na produção de algodão a partir de 1990. Até então os destaques eram os estados de São Paulo e Paraná.

A migração da cotonicultura foi impulsionada pelas condições mais favoráveis ao desenvolvimento da atividade na nova fronteira agrícola. Cultivares adaptados, clima favorável, áreas planas, incentivos governamentais e a disposição dos produtores rurais estão entre os fatores que determinaram o estabelecimento da cultura no cerrado. E a mudança teve tanto êxito que Mato Grosso tornou-se o maior produtor nacional de algodão, seguido da Bahia. Na safra 2007/08, esses estados colheram, respectivamente, 2,1 milhões e 1,2 milhão de toneladas de algodão em caroço (Conab, 2009).

Produzir algodão no cerrado requer o emprego de doses elevadas de fertilizantes, pois os solos da região são de baixa fertilidade natural. Além da carência generalizada de fósforo, apresentam também insuficiência de potássio (K). Como o algodoeiro exige grandes quantidades de K (Carvalho et al., 2005), a adubação potássica é imprescindível para a cultura produzir bem.

O fertilizante potássico deve ser aplicado na dose certa, na época adequada e do modo mais eficiente. É a receita que garante produtividade, lucratividade e qualidade ambiental às lavouras algodoeiras.

2 Potássio no algodoeiro

O algodoeiro absorve o K que está na solução do solo. Para que a absorção ocorra, primeiro o nutriente deve entrar em contato com a superfície da raiz. O contato pode ser estabelecido por meio de três mecanismos: (i) difusão, (ii) fluxo de massa e (iii) interceptação radicular (Meurer, 2006). Entre eles, a difusão é quantitativamente mais importante, contribuindo com 72% a 96% do total de K acumulado na planta (Oliveira et al., 2004).

Após o contato, o nutriente penetra na raiz, é absorvido e segue em direção aos órgãos que estão em crescimento ativo. Ao chegar ao local de utilização, começa a desempenhar suas funções. Catalisa a atividade de mais de 60 enzimas, intensifica a fotossíntese, facilita o transporte de carboidratos das folhas para as maçãs, contribui na economia de água da planta e a torna mais tolerante ao ataque de pragas e à incidência de doenças (Carvalho et al., 2007).

O papel fisiológico que o K desempenha na nutrição do algodoeiro influencia a capacidade produtiva da planta e as características do produto colhido. O fornecimento do nutriente aumenta a produtividade de algodão em caroço e em pluma (Carvalho et al. 2004), além de melhorar a qualidade da fibra produzida, tornando-a mais longa, fina e resistente (Pettigrew, 1999). Mesmo em solos férteis, a adubação potássica é considerada uma prática estratégica na obtenção de fibras mais compridas (Girma et al., 2007).

Para produzir bem e com qualidade, o algodoeiro extrai quantidades elevadas de K. A extração é da ordem de 64,0 a 88,8 kg de K2O por tonelada de algodão em caroço produzida (Tabela 1). Uma parte da quantidade extraída é exportada, ou seja, é retirada do campo junto com a semente e a fibra, por ocasião da colheita. A exportação varia de 19,2 a 26,6 kg/t (Tabela 1). As variações numéricas se devem a diferenças que existem nos diversos sistemas de produção, condicionadas pelo material genético, solo, clima e manejo da cultura. Por isso, para definir a adubação potássica com base na extração e exportação do nutriente, os valores desses atributos devem ser obtidos no local de sua utilização.

A planta absorve K seguindo o padrão ilustrado na Figura 1. O ritmo de absorção aumenta rapidamente a partir de 40-45 dias após a emergência, segue crescente até 90-100 dias e depois declina bruscamente. O período de maior exigência do nutriente ocorre no florescimento pleno, ocasião em que cerca de 1/3 do total acumulado é absorvido entre 12 e 14 dias (Carvalho et al., 2007). Após o florescimento, o K é remobilizado das partes vegetativas para as maçãs, iniciando o declínio no acúmulo do elemento.

Outra maneira de representar o padrão de absorção é associá-lo às fases de desenvolvimento da planta. Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste adotaram esse critério para estudar o acúmulo de K em dois cultivares de algodoeiro (Staut citado por Carvalho et al., 2007). Eles observaram que o cultivar BRS Araçá intensifica a absorção do nutriente na fase B1([1]), e o cultivar BRS Cedro, na fase B4([2]). Em ambos os cultivares, o acúmulo é intenso até a fase F6([3]). O cultivar BRS Araçá é mais precoce e, por isso, ele aumenta a intensidade de absorção de K antes do cultivar BRS Cedro. A observação indica que a época de aplicação de fertilizante potássico deve ser diferenciada em função do ciclo do algodoeiro.

 

Tabela 1 Extração e exportação de K em cultivares de algodoeiro estabelecidos em solos arenosos do município de São Desidério, BA, na safra 2003/2004.

Cultivar Produtividade Extração(1) Exportação(2)
kg/ha kg K (K2O)/t de algodão em caroço
BRS Aroeira 3539 64,8 (78,0) 19,4 (23,4)
BRS Camaçari 3223 69,5 (83,7) 20,8 (25,1)
BRS Ipê 3603 53,1 (64,0) 15,9 (19,2)
BRS Sucupira 3197 73,7 (88,8) 22,1 (26,6)
Delta Opal 3855 53,8 (64,8) 16,1 (19,4)
Fibermax 966 4037 53,5 (64,4) 16,0 (19,3)
Suregrow 3470 61,3 (73,8) 18,3 (22,1)
Média 3561 60,8 (73,3) 18,3 (22,0)

(1) Calculada com base no acúmulo de K na planta inteira.
(2) Calculada utilizando o coeficiente de exportação de 30%.
Fonte: Adaptado de Ferreira et al. (2004) citado por Carvalho et al. (2007).

(1) Primeiro botão floral visível
(2) Primeiro botão floral do quarto ramo frutífero.
(3) Primeira flor do sexto ramo frutífero.

Prejuízo à absorção do nutriente em qualquer fase de desenvolvimento pode provocar distúrbios na planta, como alterações bioquímicas e fisiológicas, que desencadeiam o aparecimento de sintomas de deficiência. Os sintomas surgem inicialmente nas folhas mais velhas, mas, em cultivares modernos, eles têm se manifestado primeiro nas folhas recém-maduras do terço médio e superior do algodoeiro na fase de formação da maçã.

figura1

Figura 1 Acúmulo de K (expresso em K2O) em cultivares de algodoeiro nos estados de Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS), considerando produtividade de 3000 kg/ha de algodão em caroço.
Fonte: Staut (1996) citado por Carvalho et al. (2005).

Nessa fase as maçãs demandam uma quantidade elevada de K e, em contraste, a planta não consegue absorver todo o K necessário, devido à baixa umidade do solo, condicionada pela escassez de chuva. Como a demanda é alta e a absorção é baixa, tais estruturas sequestram parte do pouco do elemento que sobe pelo xilema, impedindo suprimento adequado às folhas do ponteiro, que, então, passam a manifestar os sintomas da deficiência.

Em plantas deficientes em K, as folhas apresentam clorose internerval e, em seguida, adquirem coloração bronze-alaranjada, curvam seus bordos para baixo e desenvolvem manchas necróticas nas margens (Carvalho et al., 2005). Além disso, o início do florescimento é antecipado, a maturação dos frutos é mais rápida e o ciclo da planta fica mais curto (Pettigrew, 2003). Como resultado final, há queda na produtividade de algodão e prejuízo à qualidade da fibra.

Para evitar a deficiência de K, é preciso estabelecer um programa de adubação eficiente, baseado em critério técnico e histórico da lavoura.

3 Adubação potássica

Nos solos da região do cerrado, a reserva natural de K geralmente não é suficiente para atender toda a demanda do algodoeiro. Por isso, a adubação potássica é essencial para suprir integralmente a necessidade da planta.

A adubação deve ser realizada com base no teor de K disponível no solo e na produtividade esperada. A recomendação mais recente está apresentada na Tabela 2. Para utilizá-la corretamente, é preciso considerar as seguintes observações, feitas por Carvalho et al. (2007). As faixas de produtividade esperada devem corresponder às produtividades alcançadas nos melhores talhões da propriedade rural, considerando a mesmas condições de solo, cultivar e manejo. É pouco provável obter produtividades acima de 5000 kg/ha em solos cuja fertilidade está sendo corrigida ou em áreas em que chove menos de 1200 mm, relativamente bem distribuídos durante o ciclo da cultura. As doses sugeridas para solos com teores de K menores ou iguais a 50 mg/dm3 incluem a dose destinada à adubação potássica corretiva ("potassagem"). Quando o teor estiver alto (> 120 mg/dm3), a dose pode ser diminuída ou a adubação pode ser eliminada, caso a relação de preço insumo/produto esteja muito elevada.

O fertilizante potássico pode ser aplicado no sulco de plantio ou a lanço, em pré-plantio ou cobertura. Em princípio, o fertilizante deveria ser colocado no sulco, próximo das raízes, pois o K se movimenta a curtas distâncias no solo (Malavolta, 2005). No entanto, a aplicação de dose excessiva pode prejudicar o crescimento radicular, devido ao aumento da concentração salina na região adubada. Por isso, não se recomenda aplicar mais de 60 kg/ha de K2O no sulco (Carvalho et al., 2007). O que ultrapassar essa dose deve ser aplicado em cobertura.

 

Tabela 2 Recomendação de adubação potássica sugerida para o algodoeiro cultivado em solos da região do cerrado.

Produtividade
esperada(1)
K disponível no solo(2) (mg/dm3)
≤ 25 26-50 51-80 81-120(3) > 120
kg/ha kg/ha de K2O
Até 3000 130 100 80 60 30
4000 150-170 120-140 100-120 80 40
5000 170-190 140-160 120-140 100 50
6000 190-210 160-180 140-160 120 60

(1) Algodão em caroço.
(2) Na camada do solo de 0-20 cm de profundidade.
(3) O teor adequado de K no solo para o algodoeiro está compreendido nessa faixa.
Fonte: Adaptado de Carvalho et al. (2007).

Uma questão que surge sempre é qual desses modos de aplicação é o melhor. Carvalho et al. (2005) reuniram e analisaram resultados de experimentos de adubação potássica para ao algodoeiro cultivado no cerrado. Concluíram que aplicação a lanço em pré-plantio ou parte no sulco e parte em cobertura tem pouca influência na produtividade da cultura tanto em solo argiloso como em solo arenoso. Porém, em solos arenosos (CTC < 4 cmolc/dm3), que têm elevado potencial de lixiviação de K, uma parte da dose do nutriente deve ser aplicada no sulco e outra em cobertura. Vilela et al. (2002) recomendam aplicação de até 40 kg/ha de K2O no sulco e o restante em cobertura. Complementam aconselhando que doses acima de 100 kg/ha de K2O sejam aplicadas a lanço, independentemente da CTC do solo.   
A época de aplicação de K em cobertura deve levar em consideração as fases de maior exigência nutricional do algodoeiro. Carvalho et al. (2007) sugerem que a adubação seja feita entre as fases B1( ) e B7( ), para cultivares de ciclo precoce, e B4( ) e F1( ), para cultivares de ciclo tardio.
As fontes de K comercializadas não são numerosas. Basicamente se resumem ao cloreto de potássio (KCl) e sulfato de potássio (K2SO4). O KCl é o mais consumido no Brasil e no mundo. Para o algodoeiro, esses fertilizantes têm efeitos equivalentes (Silva et al., 1985).
Outra fonte utilizada é o nitrato de potássio (KNO3). O fertilizante é comumente empregado na pulverização das lavouras de algodão no cerrado. O objetivo dessa adubação é prevenir o aparecimento da deficiência tardia de K. Embora estudos revelem que nem sempre a prática resulta em aumento de produtividade, sugere-se adotá-la em áreas: (i) com problemas frequentes de deficiência do nutriente, (ii) onde são empregados cultivares de porte baixo, ciclo curto e com potencial de produção acima de 4500 kg/ha de algodão em caroço ou (iii) quando há restrição à absorção do elemento pelas raízes, em razão da escassez de chuva (Carvalho et al., 2007).    
4 Considerações finais
A recomendação de adubação apresentada na Tabela 2 é compatível com o potencial de produção dos cultivares modernos atualmente utilizados no cerrado. Outro ponto que merece destaque é a constatação de que os modos de aplicação de K no solo proporcionam efeitos semelhantes na produtividade da cultura. Assim, é possível transferir parcial ou totalmente a dose do nutriente aplicada no sulco para a aplicação a lanço, o que permite flexibilizar a escolha dos fertilizantes e aumentar o rendimento de plantio. Porém, para solos arenosos, prevalece ainda a recomendação tradicional de parcelar a dose do fertilizante potássico, aplicando-se uma parte no sulco e outra em cobertura, como estratégia para minimizar a livixiação de K. A utilização do Nitrogran na lavoura de algodão é vantajosa, porque, além de conter formas de nitrogênio que minimizam as perdas gasosas, pode apresentar teores variáveis de K, conforme a necessidade, permitindo uma adubação eficiente e na medida certa.

(4) Primeiro botão floral visível.  
(5) Primeiro botão floral do sétimo ramo frutífero.
(6) Primeiro botão floral do quarto ramo frutífero.
(7) Primeira flor do primeiro ramo frutífero.

5 Referências
CARVALHO, M.C.S.; BERNARDI, A.C.C. Resposta do algodoeiro à adubação potássica. Informações Agronômicas, v.107, p.1-10, 2004. (Encarte Técnico)
CARVALHO, M.C.S.; BERNARDI, A.C.C.; FERREIRA, G.B. O potássio na cultura do algodoeiro. In: SIMPÓSIO SOBRE POTÁSSIO NA AGRICULTURA BRASILEIRA, 2004, São Pedro. Anais... Piracicaba: Potafos, 2005. p.343-403.  
CARVALHO, M.C.S.; FERREIRA, G.B.; STAUT, L.A. Nutrição, calagem e adubação do algodoeiro. In: FREIRE, E.C. (Ed.). Algodão no cerrado do Brasil. Brasília: Abrapa, 2007. p.581-647.
CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Séries históricas. Disponível em: <http://www.conab.gov.br/conabweb/download/safra/AlgodaoSerieHist.xls>. Acesso em: 2 maio 2009.
GIRMA, K.; TEAL, R.K.; FREEMAN, K.W.; BOMAN, R.K.; RAUN, W.R. Cotton lint yield and quality as affected by applications of N, P and K fertilizers. Journal of Cotton Science, v.11, p.12-19, 2007.
MALAVOLTA, E. Potássio - absorção, transporte e redistribuição na planta. In: SIMPÓSIO SOBRE POTÁSSIO NA AGRICULTURA BRASILEIRA, 2004, São Pedro. Anais... Piracicaba: Potafos, 2005. p.179-238.  
MEURER, E.J. Potássio. In: FERNANDES, M.S. (Ed.). Nutrição mineral de plantas. Viçosa: SBCS, 2006. p.281-298.
OLIVEIRA, R.H.; ROSOLEM, C.A.; TRIGUEIRO, R.M. Importância do fluxo de massa e difusão no suprimento de potássio ao algodoeiro como variável de água e potássio no solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.28, p.439-445, 2004.
PETTIGREW, W.T. Potassium deficiency increases specific leaf weights and leaf glucose levels in field-grown cotton. Agronomy Journal, v.91, p.962-968, 1999.
PETTIGREW, W.T. Relationships between insufficient potassium and crop maturity in cotton. Agronomy Journal, v.95, p.1323-1329, 2003.
SILVA, N.M.; FUZATTO, M.G.; CHIAVEGATO, E.J.; FERRAZ, C.A.M.; HIROCE, R. Adubação potássica do algodoeiro: época, modo de aplicação e tipo de fertilizante. Bragantia, v.44, p.263-274, 1985.
VILELA, L.; SOUSA, D.M.G.; SILVA, J.E. Adubação potássica. In: SOUSA, D.M.G.; LOBATO, E. (Ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2002. p.169-183.

*Alysson Roberto Baizi e Silva, engenheiro agrônomo, mestre em Ciência do Solo e doutor em Produção Vegetal, é assessor agronômico da Bunge Fertilizantes no Oeste da Bahia e no Tocantins. Tem experiência em Fertilidade do Solo, Nutrição de Plantas e Adubação.

Algodão em caroço.



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